segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Apagão em Picos

Passei este final de semana em Picos, cidade do Piauí, distante 270 quilômetros do Crato. Fui ministrar aula no curso de especialização em História e Sociologia. Já esperava pelo calor abrasador dessa época quente do ano. Antes de embarcar, dei uma espiada no canal Climatempo: máximo de 36 graus. Não esperava, entretanto, pelo apagão que interrompeu a aula na noite de sexta. Apagão no Brasil não tem sido, ultimamente, nenhuma surpresa. Diversos bairros cariocas que o digam. Apagão em Picos, então, foi algo n-o-r-m-a-l-í-s-s-i-m-o, super-na-moda, atual. Voltei para o hotel na companhia dos outros professores que também ministravam aulas em outros cursos. Sentamos na calçada para uma cervejinha estupidamente gelada e sabiamente necessária. Jogamos conversa fora enquanto a lua crescente pairava no zênite.

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Não quero ovo

Às vezes sou amante à moda antiga, daqueles que mandam flores e depois... atira. Frequentemente, sou tachado de medieval (mas, baby, eu me acho um cara tão atual). Certos dias me faço moderno; noutros, contemporâneo. Sou, também, extemporâneo, anacrônico, cafona, quadrado. Sou previsível, mas também inusitado. Sou aquele que sou. Sem querer, também já fui. Mas, sempre quero ser o que serei. Um dia. Um belo dia de um futuro incerto. Neste presente efêmero. O passado prescrito.
O tempo é o senhor da razão. Milenarista, busco o tempo perdido, compuscardo. O passado glorioso dos ancestrais. Devorar montanhas de pão de milho. Afogar-me nos rios e riachos de leite. Cantarolar aquela musiquinha cujo refrão diz: eu não nasci pro trabalho, eu não nasci pra sofrer...
Estou cansado dessa pós-modernidade. Não sou pós-moderno. Não quero ser um escravo tecnológico. Não quero as facilidades do progresso.
Prefiro as dificuldades do ócio.
Não quero ovo...

sábado, 21 de novembro de 2009

Hey Girl!

Hey Girl! é uma canção de uma banda brasileira que no início só cantava em inglês. A banda é Lee Jackson, de São Paulo, que na década de 1970 fez um certo sucesso com sua proposta de unir rock e samba. Nada mais original, na época, e nada mais gostoso de ouvir.

Sou fã da banda Lee Jackson desde que o meu irmão Tobinha comprou dois discos dela (a banda só lançou três discos), e que passaram, desde então, a fazer parte da minha trilha sonora.

Ontem, no Bar Ponto do Cupim, no Parque Grangeiro, voltei a escutar o Lee Jackson, através do dvd de Os Originais, que assistia ao lado de Zé Airton, filho mais velho de Davi Brandão e Dona Maria e irmão de um dos meus maiores "brothers", Luiz Welligton.

Zé Airton é um dos maiores "experts" em música que conheço (ao lado de Marcos Leonel), cujo gosto refinado é motivo para longas horas de bate-papo.

Zé Airton surpreendeu-se quando disse que a música Hey Girl era do Lee Jackson. Ele achava que era apenas uma versão tocada pelos Fevers. Quando falei da banda Lee Jackson, Zé Airton cochichou perto do meu ouvido: precisamos trocar umas idéias!

Recebi o cochicho como uma senha. Por isso, mesmo depois de todos os outros que estavam na mesa terem saído, permaneci com Zé Airton em conversas particulares. Falamos do Crato de outrora, do mestre Alderico, recém-falecido, e, claro, de música, muita música. Foi quando Zé Airton revelou a sua primeira audição dos Beatles, ocorrida em 1965, através de Tiago Araripe (Papa Poluição, Cabelos de Sanção).

Zé Airton, segundo o seu relato, caminhava para casa em pleno meio dia, quando escutou um som diferente, algo que nunca tinha ouvido antes. O som era de uma música que ecoava da casa de Jósio Araripe e Dona Eneida, pais de Tiago Araripe, o responsável pela reprodução da música. Zé Airton conhecia Tiago e, movido pela magia do momento e pela curiosidade típica dos adolescentes da época, chamou o amigo da soleira da porta para se inteirar da novidade. Tiago, então, apresentou os Beatles a Zé Airton, pela música I Wanna To Hold Your Hand. Zé e Tiago ficaram na calçada, ouvindo a música por dezoito vezes. O sol do meio dia castigou o rosto de Zé Airton que, ao chegar em casa ainda levou um "carão" de Dona Maria, por achar que ele estava mesmo era tomando banho no rio Batateiras, lá pelas bandas do Sítio Fundão.

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Versos que não são meus

Faço meu o verso do poeta maldito: eu não sei o que meu corpo abriga nessas noites quentes de verão. Digo & repito, não sei se dito ou bem dito: eu não sei se o meu corpo abriga algo além de um coração e um fígado um pouco comprometido. Não sei se tenho abrigos além da casa da minha mãe. Sei que sou bem quisto na casa da minha mãe. Sou um filho da mãe, filho de um tempo meio escrôto, antes da chuva e depois do fogo. Um fogo que eu mesmo provoquei. Hoje, como bom coroa, sou bombeiro, meio medroso, é certo. Não teria a coragem dos firemen novaiorquinos naquele fatídico dia de setembro de 2001. Prefiro a fortaleza do meu quarto, ouvindo música, assistindo televisão, batucando no teclado do computador uma baladazinha qualquer. Vez por outra dando uma espiada no meu filho que passa o dia imaginando coisas e transformando o tédio em diversão. Ele tem três anos e quatro meses. Eu vou completar quarenta e quatro anos. Sinto-me, pois, uma espécie de avohai.
Faço meu o verso do poeta laureado: - Meu pai foi rei. - Foi! - Não Foi!...

sábado, 14 de novembro de 2009

Como diria Paulo Fuíska: adoro bares!

Treze horas e trinta minutos. Tenho sede em pleno horário de verão. Lá. Não aqui. Detesto horário de verão. Lembro do primeiro ano em que ocorreu. Foi em 1985, acho. Estava no auge da minha juventude. Saia para as baladas todos os finais de semana, começando na sexta. Geralmente, virava a noite pelo avesso. A alvorada era saudada ainda com goles de cerveja. A noite beijando o dia e gente ainda se beijando. No Bar de Abidoral, no conjunto Padre Cícero, rodovia Crato - Juazeiro. Toda a galera reunida. Música ao vivo com a Banda Cariri (João do Crato, Manel D'Jardim, Cleivan Paiva e Cacheado). Bar da Lagoinha (leia-se Blandino), rodovia Crato - Ponta da Serra. Baile Rock à Fantasia. 1986. Camping na Serra. Banhos no Tancão e no Umari. Aquele Chevette verde de Calazans. Aquele fusquinha prata de Salatiel. Cavalos alados e minotauros atravessando desertos. A sede da década saciada nas noites quentes ou úmidas, "sempre em bando de quinze ou de vinte", em bares e botequins. Bar de Silvanir na Praça da Sé. Bar do Rosto no sítio Rosto, quando nem imaginava meu futuro ali. Skina Bar, no Bairro Vermelho. Bar do Parque, no Parque Municipal, ponto de encontro da rapaziada cult e onde realizávamos a Feirinha do Parque e o Salão de Outubro. Onde passávamos os dias de vadiagem sentados nos bancos ou na grama, bolando estratégias para a nossa guerrilha cultural. Bar da Gaiola, submundo cratense, perto da prefeitura, na beira do canal, onde um dia quase fui assassinado; mas quando Geraldo Urano, anjo da guarda, me salvou. Lua Nua, em Juazeiro, onde a banda Fator RH tinha palco cativo. Bar do Natão, em Barbalha (batizada por Lupeu de Bronxbalha). Bares da vida, do Calçadão aos bares temporários da Exposição.

Interessante: Nenhum desses bares existe mais.

A Mostra Sesc Cariri é o meu Woodstock

Sexta-feira, 13. Um bom dia pra comemorar. Mais um início de fim-de-semana. Fran aprovada em concurso público. E, não coincidentemente, abertura da Mostra Sesc Cariri de Cultura.

Fomos (eu, Fran e Salatiel) pra Rffsa, prestigiar a abertura do Expresso Mundo, o bar de Kaika, e assistir à apresentação de Itiberê e Orquestra Família.

S-e-n-s-a-c-i-o-n-a-l.

Lá, encontramos Glauco e Aline. Tomamos cerveja (eu e Glauco). Salatiel bebeu uma dose de Campari. Encontrei o 'blue's man" Jefferson Gonçalves que, comprovando sua índole generosa, disse que veio pra trabalhar como 'roadie'.

- "Nenhuma canja, Jefferson"? - Perguntei.

"Sim. No show do Cascabulho - respondeu.

"Gracias"! - Agradeci.

De lá, migramos pro clube (Crato Tênis), em tempo de ver praticamente o show completo da banda Cidadão Instigado.

M-a-r-a-v-i-l-h-a.

Tive a honra de cumprimentar Fernando Catatau e parabenizá-lo.

Em seguida, identifiquei parte da Orquestra de Itiberê ao lado de onde estávamos (eu e Fran) com Gladstone e Cláudia. Não pensei duas vezes e fui cumprimentá-la através de Beto, violonista e conterrâneo. Ele convidou-me para mais uma apresentação do grupo, amanhã.

Estarei lá.

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Sobre amigos e desafetos

Geralmente, não percebemos a força e o alcance de determinadas iniciativas. Por isso, tudo deve ser bem pensado e planejado. Às vezes, temos problemas indesejáveis por conta de atitudes ou atos impensados. Quando ferimos pessoas ou suscetibilidades, devemos ter a humildade e a grandeza de pedir perdão. Há alguns dias, encontrei um amigo contra quem cometi uma estupidez certo tempo atrás. Desculpei-me o quanto antes, mas senti que se tinha criado uma aresta difícil de aparar. Atualmente, que eu saiba, não tenho inimigos nem desafetos. Já tive vários entreveros com pessoas e sempre que houve reconciliações, senti-me enormemente bem e feliz. Uma amizade perdida ou mesmo não conquistada, é algo que me deixa profundamente triste.

sábado, 7 de novembro de 2009

Para Talita Régia



a juventude em close
em close-up bem definido
alegre e irresponsavelmente amiga
abram alas!, para a sua pândega

deixe-a passar sem blitz
e brincar com os bichos
e as flores ainda vivas
celebram solenemente a vida
abram a roda para a ciranda
que vem em piruêtas ou rodopios

o hino foi momentaneamente esquecido
restaram alguns trechos perdidos
enquanto o novo bardo canta
freedon e continuamos
ainda presos ao passado

a juventude dança embalada
em sonhos feito purê de batata
em sopa requentada de frango
em dueto pleno com o mundo

ainda somos criança

sábado, 31 de outubro de 2009

Ludimila


O ensaio fotográfico completo pode ser visto no blogue Zoomcariri.
Para acessar clique AQUI.

Sem palavras

Não tenho palavras
Para agradecer ou lamentar
Ou mesmo pra pedir o que ainda não conquistei
E ganhar o que a vista alcança
Ao longe, bem longe, minha cara
Uma face conhecida de minha própria história
São dias longos e noites curtas
Apesar desta infindável insônia
Além deste calor abrasador de outubro
Bem típico de minha terra
Ardente, como diria um gênio
Que ainda está dentro da garrafa
Esquecida e enterrada
Esperando pela sorte de uma pessoa
Que, por sua vez, depende de algumas outras
Os anos passam e assim passou-se uma década
Desde que te vi pela última vez
Ainda sorrindo e acreditando num próximo encontro

Não tenho palavras
Nem para um poema
Nem para uma frase

Quanto mais mexe mais fede

Outubro de 2009 está indo. Gosto muito do mês de outubro. Como gosto de todos os meses, visto que são o cronômetro da minha vida. Vida esta que não escolhi (não que lembre), mas que é uma dádiva de deus (propositalmente, escrevi deus com minúscula. Ele não precisa de pompa. Ele é a própria pompa).

Grato sou aos dias. Não à-toa, meu sobrenome é dias. Minha vida são dias atrás de outros. Até hoje. E que dia é hoje?

Sábado, 31. Dia das bruxas. Today. E esta noite: hey tonigth, ouvindo creedence clearwater revival.

Assisti há pouco a vitória do mengão pela tv. Depois, abri o e-mail e recebi uma mensagem de um amigo que visitei hoje: "nunca se justifique. Os amigos não precisam e os inimigos não acreditam".

É isso...

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

445

A última postagem - algumas palavras soltas - foi a de número 444. Não sou lá muito cabalístico, mas essas sequências numéricas impressionam-me deveras. Os funcionários da embaixada dos Estados Unidos em Teerã passaram exatos 444 dias reféns dos revolucionários islâmicos. Lembro bem de todo esse imbróglio internacional, desde o primeiro ao último dia (a crise durou de 4 de novembro de 1979 até 20 de janeiro de 1981). Torcia pelos iranianos como torço pelo Fortaleza contra o Ceará. Torci, inclusive, quando helicópteros norte-americanos cairam num deserto do oriente Médio, numa atrapalhada e fatídica tentativa de resgate dos prisioneiros. Hoje, lamento quase tudo: os militares que morreram na fracassada operação de resgate, quando as aeronaves foram derrubadas por uma tempestade de areia; o impacto que essa derrota americana teve nas eleições presidenciais dos EUA, quando Jimmi Carter foi derrotado por Ronald Reagan, e a ascenção do regime teocrático do Irã.

Não sou cabalístico, repito, mas essas coincidência numéricas e factuais impressionam-me deveras.

Algumas palavras soltas

É sexta-feira e fim de férias. Como os dias passaram céleres! Hoje é dia de programa. Cariri Encantado. Noite de sexta. Cantinho do Pimenta. Véspera de sábado. O último feriado do mês. Como é bom não fazer nada. Ficar só pensando. Escrevendo coisas à-toa. Pescando palavras ao léu. Ainda tenho que escrever o texto de abertura do programa. Salatiel pediu que escrevesse algo sobre forró pé-de-serra. Sou forrozeiro e moro no sopé da Serra do Araripe. Bem perto de onde nasceu Luiz, o Rei do Baião. Perto de Exu, onde nasceram também minha mãe e alguns irmãos. Escrever sobre minha aldeia é como meter uma faca amolada num queijo de manteiga. É como beber água da fonte cristalina com a concha das mãos. É só escrever...

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Esta cidade

É preciso dar mais corda no coração desta cidade
Umas setecentas e tantas mil voltas de corda no coração desta cidade
Um choque de milhões de volts no cérebro clinicamente morto desta cidade
Mais gasolina óleo diesel álcool no motor desta cidade
Colorir os out-doors das avenidas cinzentas desta cidade
Enxaguar o chão imundo desta cidade

É de um sacolejo forte que os moradores desta cidade estão precisando
Para acordar da letargia do sono profundo do pesadelo da preguiça que estão sofrendo os moradores desta cidade
Para ocupar ruas praças parques cinemas bares igrejas clubes cassinos cemitérios todos os espaços úteis desta cidade
Para deflagrar a revolução tardia e necessária que salvará esta cidade da sua anunciada morte súbita

É de um grande esparro que o prefeito desta cidade está precisando
Para sanear o grande esgoto a céu aberto que envergonha os moradores desta cidade
Para tirar os camelôs que emporcalham a praça que é o coração desta cidade
Para ser a necessária autoridade que esta cidade está precisando

É preciso também ter muito saco para aguentar o tédio desta cidade

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

PR pelas lentes artísticas de Wilson Bernardo

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

A lição de PR

Hoje eu escutei uma das coisas mais lindas já ditas por alguém. E como se não bastasse a beleza e a profundidade do conteúdo, foi meu filho quem disse, enquanto entrava no carro, após sair da escolinha:

- Pai, você é um anjo!

Admirado e comovido, lhe devolvi o elogio:

- Anjo é você, filho.

E ele, completando a lição, retrucou:

- Não, pai! Eu sou um mamífero.

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Dia de PR

Dia da Criança, pra mim, é Dia de Paulo Rafael - meu garotão de três anos e três meses; que cresce, cresce todos os dias e a todo momento, mas que ainda é o meu bebê, cheio de surpresas, que me fazem rir e me emocionam.

Ensino a ele tudo o que sei, mas também aprendo muito com ele. Ontem, ele foi comprar uma guloseima numa lojinha. Dei-lhe dois reais. Ele devolveu-me o troco de setenta centavos. Depois, ficamos no barzinho contíguo. Enquanto eu tomava uma cerveja e ele bebia um guaraná e comia sua guloseima, jogávamos conversa fora. Fran chegou em seguida com Ravena e Talita. Depois, ela me disse que achou essa cena linda: eu e PR, “de testa”, bebendo os respectivos drinques enquanto conversávamos em um barzinho, como dois velhos amigos.

Hoje, pela manhã, fui dar uma volta com PR. Na verdade fomos até a casa do sítio, pegar, principalmente, sua piscininha de plástico. Agora, Talita tá enchendo a piscininha e PR já tá dentro, brincando com seu golfinho de borracha, enquanto escrevo essa croniquinha em homenagem a ele.

Lupeu faria melhor

Foi louvável da parte do poder público cratense, através da Secretaria de Cultura, convidar um híbrido das bandas Pombos Urbanos e Fator RH, primeiros grupos autorais de rock do Cariri, para uma rápida e “tumultuada” apresentação na abertura do Festival Cariri da Canção, categoria estudantil.

O convite foi apropriado, pois os Pombos Urbanos foram uma banda que surgiu, em meados da década de 1980, também embalado nas ondas do movimento estudantil da região. Não à toa, a banda Pombos Urbanos estreou fazendo a abertura de um festival estudantil da canção, realizado na Quadra Bicentenário, em Crato, em outubro de 1987. Portanto, em circunstâncias muito parecidas da apresentação de volta do(s) grupo(s), acontecida no último sábado, 10 de outubro.

Pois bem. Vinte de dois anos depois daquela estreia, realizei o desejo de voltar a cantar e, ao mesmo tempo, de me despedir dos palcos.

O simulacro do que foram as bandas Pombos Urbanos e Fator RH tocou duas músicas. A primeira, o indiscutível sucesso dos Pombos Urbanos – Marinalva. A segunda, o sucesso do Fator RH – Nomes. Entre uma música e outra, enquanto narrava a epopeia que foi fundar e manter bandas de rock naqueles “jurássicos” tempos, uma galerinha, em alto e bom som, tentava gozar da minha cara, pedindo, em tom de galhofa: “canta, Chorão”.

Então, fiz, acho, o que Lupeu faria: mandei a galerinha tomar no c...

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Dos Pombos Urbanos à Nacacunda e a volta do Fator RH: 22 anos de rock caririense

Banda Fator in Concert: 8 de janeiro de 1989

A Banda Fator RH fará uma apresentação amanhã, dia 10, às 19:30 horas, no Centro Cultural do Araripe, em Crato, na abertura do Festival Estudantil da Canção. A idéia partiu da equipe de organização do evento, promovido pela Secretaria de Cultura do Crato. Para aqueles que viram as históricas apresentações do grupo, será um momento de alegria misturada a nostalgia. Para os mais novos e os que passaram "batidos", será uma oportunidade de conferir porque ainda hoje se fala nesta rapaziada “cretácea” , pioneira do rock’n’roll caririense.

Pombos Urbanos, 1987 : Nicodemos, Cacheado, Rafael Fel e Sergestes Tocantins

Tudo começou com a banda Pombos Urbanos, criada no segundo semestre de 1987, por mim e Nicodemos, e dela também fizeram parte Marcos Lobisomem, Sergestes Tocantins e Cacheado, baterista, já falecido.

O nome surgiu quando eu e Nicodemos atravessávamos a Praça Cristo Reis, em Crato, em meio aos pombos, que naquela época, faziam parte da paisagem do logradouro. Nico, então, disse a frase mágica: “somos todos pombos urbanos”. E eu: “pombos urbanos? Isso é nome de banda de rock”. E ele: “então, vamos fazer uma”.


Fator RH, 1988: Manel D'Jardim (arranjador e músico esporádico), Rafael, Sergestes, Lupeu, Marcos, Calazans e Salatiel (grande apoio)

Foi um caso incomum de uma banda que surgiu depois do nome, pois até, naquele momento, não tínhamos tramado nada neste sentido.

No dia seguinte começamos a... compor. E compomos, de cara, o maior hit da banda: Marinalva (“...uma boa moça, uma grande alma. Trabalhava na LBA como assistente social. Católica militante, virgem filantrópica. Queria salvar o mundo...”). Foi mais um caso incomum de uma banda que emplacou o seu maior sucesso logo com a primeira composição.


Fator RH, 1988: Rafael, Calazans, Sergestes (sentado), Lupeu, Marcos e Júnior Balu

Os Pombos Urbanos tiveram vida efêmera, da sua estréia até a despedida, foram somente oito meses, de outubro de 1987 a maio de 1988. Nico foi embora e do que restou da banda (eu, Sergestes Tocantins e Marcos Lobisomem) formou-se o Fator RH, incorporando Lupeu, Calazans Callou e Júnior Balu. O Fator RH durou três anos, até 1990, quando, depois de mudanças de membros (saíram Marcos e Sergestes e entraram Leonardo Leo, Igor Arraes e João Eymard), transformou-se no Lerfa Mu, com participações esporádicas de Manel D’Jardim, como guitarrista e arranjador. Com essa formação, o Lerfa Mu gravou uma fita demo no ProAudio Studio, em Fortaleza.

De 1991 a 1995, houve um interregno. Lupeu foi para Petrolina. Calazans para Recife. Leonardo Leo para Boa Viagem (onde ainda hoje mora, sendo maestro da banda de música daquela cidade cearense). Igor deu um tempo. João Eymard sumiu. Eu me casei e fui ser professor para sustentar a família.


Nacacunda, 1995, gravando para o programa Brasil Legal: Marcos, Roger, Rafael e Rubinho

Mas, em 1995, com o retorno de Marcos Lobisomen, que passou a morar em Juazeiro, onde abriu uma loja de móveis para crianças, voltamos a nos reunir para fazer um som, de noite, na dita loja. Eu, Marcos, Luís Carlos Saraiva, Roger e Rubinho. E, com essa formação, foi criada a banda Nacacunda que, na esteira do sucesso de Chico Science & Nação Zumbi, seguiu a fórmula do momento, incorporando ritmos nordestinos à batida roqueira. A nova banda estreou em show no Sesc-Juazeiro.



Nacacunda em Recife (Festival Skol Rock), 1996: Calazans, Rafael, Igor, Marcos, João Eymard e Antonio Carlos

Depois, novas mudanças. Igor e João Eymard voltaram. Antonio Carlos, percursionista, entrou. Eu e Marcos permanecemos. E, com esse “team”, conseguimos o nosso maior feito até então: classificar uma música para um festival de porte nacional: o Skol Rock. Tocamos na primeira noite da eliminatória norte-nordeste, no Centro de Convenções de Olinda, PE, em julho de 1996. Foi o Auge.

Em seguida, não dando mais para conciliar a vida de roqueiro com a profissão e a família deixei a banda e fui substituído por Hugo Arraes, irmão de Igor. Calazans, mesmo morando em Recife, foi o maior responsável pela continuidade e atividade da banda. Assim, hospedou a rapaziada (Miguel Batera, já falecido, Nivando Ulisses e Paulo Lobo) em seu apartamento, e bancou, praticamente sozinho, a gravação do primeiro (e até então único) CD da banda, lançado em julho de 2006, em show na Expocrato.

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

A volta da banda Fator RH

A banda Fator RH, uma das pioneiras do movimento roqueiro caririense, que fundei juntamente com Marcos Leonel e Sergestes Tocantins, se reunirá depois de quase vinte anos para uma única apresentação. Será sábado, dia 10, na abertura do Festival Estudantil da Canção, às 19:30, no Centro Cultural do Araripe (antiga Rffsa).

Da formação original, além de mim, já confirmaram presença Marcos Leonel e Igor Arraes.

Enquanto não chega a hora do show, matemos a saudade desse alegre e inesquecível tempo com fotos e um texto escrito por Marcos Leonel, já publicado no Cariricult.



BANDA FATOR RH- Final dos anos 80, Baile Rock à Fantasia,
Bar Banho de Bica, em Crato. Da esquerda para a direita: Sergestes
Tocantins, Lupeu , João Eymard (na bateria), Calazans Callou e
Marcos Leonel.



UMA QUESTÃO DE SANGUE

Por Marcos Leonel



Essa é a primeiríssima formação do Fator RH, segunda banda de rock autoral do Cariri. Após o término da pioneira Pombos Urbanos, - que tinha em sua formação Carlos Rafael, bateria e voz; Nicodemos, guitarra e voz; Segestes Tocantins, baixo e voz; e Marcos Lubisome, guitarra - eu, Segestes e Rafael formamos um grupo de ensaio que originou a banda Fator RH. Primeiro Calazans se juntou ao grupo, para tocar baixo. Depois Lupeu foi integrado como vocalista e anarquista. Logo em seguida Calazans trouxe João Eimar para tocar bateria no lugar de Rafael, que passou à linha de frente nos vocais. Estava feita a conspiração, só faltava a guerrilha.

Corriam os anos 80, a new wave comandava o cenário musical do rock lá fora e aqui começava a todo vapor o chamado Brock. Estávamos lá, inconformados com a falta de oportunidades e com a pasmaceira do quadro cultural caririense. O Fator RH estava na área, não para fazer o papel de testemunha ocular, mas participar de tudo aquilo, mesmo entrando pela porta de trás e sem nenhum convite. Nossa trincheira era o discurso poético, tendo à frente as sacações geniais de Rafael, o cinismo beat de Lupeu e a lisergia do meu universo musical. Ouvíamos de tudo: desde a música independente brasileira até às experimentações da Orchestra Universal de Sun Ra.

Nossas influências eram a música crua do Hasker Dü, do Ramones, Sex Pistols e Raul Seixas, via Segestes Tocantins; a pauleira sem misericórdia do Sepultura e do Slayer, via Lupeu; os blues e a música alternativa brasileira, via Rafael; o experimentalismo de Robert Frip e Frank Zappa, da minha parte; o rock dos anos 70, através de João Eimar; e a poesia bem sacada de Zé Ramalho, através de Calazans. Nosso som era cru, era na veia, era muito mais rock’n’roll do que aquilo que fazia sucesso, como Paralamas, Legião e outras coisas mais intragáveis como Kid Abelha e Gang Noventa. Nosso som estava mais para Talking Heads e Joy Division do que para o heavy metal poser do período; estava muito mais para Isca de Polícia e Tiago Araripe do que para Titans ou Legião.

Era um período difícil demais para quem fazia rock, sendo autoral ainda nem se fala. Não existiam espaços. Nós é que inventávamos, como em encontros de estudantes e campanhas eleitorais do PT. Também não existia público, nós é que inventávamos que tínhamos público. Comprar encordoamento era uma verdadeira aventura, e cara. Quando João Eimar anunciou que tinha uma bateria, foi uma verdadeira festa. Os ensaios valiam mais do que as próprias apresentações. Eram verdadeiras epopéias. Ensaiávamos na casa de Segestes, um sítio, fora do Juazeiro (hoje é o parque ecológico das Timbaúbas). Muitas comédias temos para contar. São lances pitorescos, dignos de um best seller. Essa formação do Fator RH tinha cerca de sete músicas no repertório, o que já era demais. Entre elas figuravam: Nomes, Buraco Negro, Fator RH, Margarete, Marinalva e outras pérolas do cancioneiro rebelde caririense. Pena que eu não lembro onde foi essa apresentação. Sei que era Rafael de bateria e voz; Lupeu nos vocais; eu e Segestes de guitarra; e Calazans no baixo.

Marcos Leonel

domingo, 4 de outubro de 2009

Agora é comigo

Agora é comigo
Comigo e os meus botões
Botões de flor em segredo
Fechados em si mesmos
Abrirão um dia, decerto
Cobrirão pântanos e desertos
Acariciarão a barriga da serpente
Esta noite ainda é minha
O negócio que abri pro meu sustento
Um pôr de sol muito quente
Não esconderá a noite fria

Agora é comigo
Deixe que eu trucido as borboletas
Agradeço, então, aos amigos
Pela visita na noite passada
Pelas cervejas, ovos de codorna, queijo e salame
Pela conversa e pela música
Mas, agora é comigo

Trago livros, discos e filmes
Aqui a TV não pega
Trago pão, lentilha e carne
As boas novas foram uma boa tarde
Trago planos e tantos sonhos
Mas, agora o negócio é meu
É comigo

Fiz o almoço: feijão cremoso
Fiz também um chá de boldo
E depois não fiz mais nada
O negócio mesmo é não fazer nada
Sobreviver passando o tempo
Passar o tempo sobrevivendo
Enquanto o vinho me aguarda
A noite é a companheira
Enquanto minha mulher não chega

Deixe comigo as saudações rotineiras
E vá preparando o banquete
Não se esqueça de acender o incenso
Que a vela de sete dias já está ardendo
Deixe comigo as boas-vindas
Citarei o início do livro que estou lendo
Assoviarei um trecho do hino dos eleitos
Serei cortês até onde me entendo
De gente deixe comigo
E vá preparando o banquete

Cuidarei também das flores
O jardim é um complexo tabuleiro
Não há fruto no jenipapeiro
Estar também vazio meu limoeiro
Não há muitas frutas neste período
Já é outubro e ainda é cedo
Compre umas frutas no quitandeiro

O calor da tarde não apagou o sorriso da noite
Agora estar ameno, porém já é tarde
Toque as teclas do piano ou aperte o play do equipamento
Ainda é noite e o futuro estar presente
Com a tecnologia redentora de tédio
Deixe que eu toco o piano

Seus dedos, seu cheiro
Seus cabelos levemente molhados
Suas coxas, seus seios
Sua respiração calma e sonolenta
Quando te abracei ontem pude antever a aurora nascendo
Nem foi preciso música, que se calou tão quieta

O meu negócio atual é não ter negócio nenhum
Nem que me custe um milhão de cruzeiros
Vou pastorar passarinhos
O que já é uma grande tarefa
Para se fazer sozinho

Escrevo tão somente
Não tenho nada melhor para fazer
Às vezes escrevo porque faço
Algo mais ao mesmo tempo
Como beber e ouvir música
A mais fiel companheira

Tenho tido mil motivos para encher a cara hoje
Tenho muitas razões para me achar um mentiroso nato
Às vezes quando bebo me acho chato
Porém ainda não encontrei a lucidez em garrafa
Nem a verdade em doses homeopáticas

Tomarei hoje as cervejas
Deixarei o vinho para mais tarde
Pois será um dia de domingo
Um bom dia para celebrar
O último dia de um passado
E o primeiro dia do resto da vida
Não tenho pressa, pois
Ele passará como passou
O outrora grandioso e poderoso império romano

Enquanto isso escuto dave brubeck tocando piano
É um blues, um pássaro ou um avião?
Não
É simplesmente dave brubeck tocando piano
Com um pássaro escondido na mão

Trago todos os remédios prescritos
Perdidos e achados no fundo da farmácia
Bálsamo para a vida
Sal de eno para o estômago
Xilodase para o ânus
Anagripe pro resfriado
Amanhã será domingo
Portanto, feriado

Sei que vou morrer
Não sei o dia nem a hora
Sentirei saudade dessa hora
Mas vou morrer
Não sei a hora nem o dia
Sentirei saudade desse dia

sábado, 19 de setembro de 2009

A fuga de PR

Já disse que costumo levar, vez por outra, meu filho Paulo Rafael, de 3 anos de idade, para o Centro Cultural BNB, nas tardes de sábado, quando acontece uma programação infantil regada a teatro, cinema, contação de estórias etc.

Da última vez que o levei, a pecinha teatral não era lá essas coisas. O texto era meio capenga e a direção deixava muito a desejar.

PR parecia não está gostando do espetáculo, mas mesmo assim aguentou os primeiros minutos.

pras tantas, como a peça não deslanchava, impaciente disse: eu acho que vou fugir.

Foi a deixa para sairmos de fininho.

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Contemporâneo: espetáculo musical de Luiz Carlos Salatiel na III Mostra BNB da Canção Brasileira Independente


Dia 19 de setembro, sábado, 19:30, no Centro Cultural BNB – Cariri

Entrada Franca

O Espetáculo
Contemporâneo é um vigoroso espetáculo musical onde o artista, acompanhado de alguns dos melhores músicos da região, interpreta textos e canções autorais.
Salatiel é artista de teatro, música, cinema, militante e produtor cultural desde os anos 70. Um poeta que adotou a arte como única arma e a música como aliada. Sem dúvida, um dos mais importantes nomes da cena artística do Cariri cearense.

O Repertório
O CEGO (J.Flávio Vieira/Luiz Carlos Salatiel)
ORIENTE (Eugênio Leandro)
ESCOLHAS (Carlos Rafael/Zé Nílton)
DONA RUTE, MEU AMOR (Geraldo Urano/Luiz Carlos Salatiel)
O RÁDIO/NADA DE NOVO (Geraldo Urano)
CINE CASSINO (Tiago Araripe)
(INSTRUMENTAL)
SEU OLHAR NO MEU (Abidoral Jamacaru)
GIRASSÓIS (Geraldo Urano/Calazan Callou)
FRIEZA (Florbela Espanca/Luiz Carlos Salatiel)
CANÇÃO CRISTALINA (Rosemberg Cariry/Cleivan Paiva)
LEIA NA MINHA CAMISA (Geraldo Urano/Luiz Carlos Salatiel)
CORAÇÃO SAGRADO (Pachelly Jamacaru)
SOB O LUAR DE OSLO (Geraldo Urano/Luiz Carlos Salatiel)
LIMITE (Luiz Carlos Salatiel/Pachelly Jamacaru)
PORQUE NÃO CANTAR (Pachelly Jamacaru)

A Banda
Ibbertson Nobre: Teclados
Lifanco: Violão e Guitarra
João Neto: Contra-Baixo
Saul: Bateria
Cícero Tertuliano: Percussão

domingo, 6 de setembro de 2009

O dia em que quis ser gari

Teve um dia em que preteri os estudos para varrer a minha rua.

Estudava na Escola de Primeiro Grau Francisco José de Brito, que ficava a dois quarteirões da minha casa. Já estava fardado quando a frente da minha casa estava sendo varrida por um lixeiro ( era assim que se chamava, na minha época de infância, os garis de hoje). Lembro que o tal lixeiro era uma pessoa idosa e de que ele pediu um copo d'àgua. Enquanto ele bebia a água eu pedi para ficar varrendo a rua no seu lugar. E gostei tanto do ofício que continuei varrendo enquanto o velho observava admirado todo aquele voluntarismo. E assim passou-se um bom tempo, atrasando-me para a aula. Minha mãe, avisada por um dos meus irmãos, de que eu relutava em soltar a vassoura, obrigou-me a ir para escola, mas somente depois de me dar uns "bolos "(era assim que se castigava as crianças desobedientes da minha época de infância: aplicando umas chineladas na palma da mão).

sábado, 5 de setembro de 2009

Jogos infantis

Na minha infância, brincava-se de tudo no bairro da Cruz: roda (atirei-pau-no-gato-to-to, cirandinha-cirandinha-vamos-todos-cirandar e fui-a-Espanha-buscar-o-meu-chapéu...) lagarta pintada; uva, pêra ou maçã; cinturão queimado, bilas ou búrias, latarrumba, bicheira, garrafão, bola, circo, pescaria, caçar com baladeira, peça-ruim, empinar pipa (papagaio), triângulo, bata (com figurinhas), se esconder, "impunhação", contar estórias e, nas noites de blackout, contar estórias mal-assombradas ; paquerar a menina mais bonita da rua etc.

Brincava-se muito e com muita alegria no bairro da Cruz.

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

A aurora da vida (fatos inolvidáveis da infância)

A infância, no geral, é um tempo feliz em que se vive sem muita maldade (ou maldade sem muita consequência).

Vivi toda a minha infância no bairro Buenos Aires, que devido à pouca distância do centro da cidade, também era chamado de Centro. Por causa da famosa Rua da Cruz, hoje Avenida Tedorico Teles (extensão da Avenida Padre Cícero, que liga Crato a Juazeiro), a única via que era asfaltada em toda cidade, o Bairro Buenos Aires tinha ainda um terceiro nome: Bairro da Cruz. O certo é que vivi minha infância naquele simpático espaço do Crato, no final dos anos de 1960 e por quase toda a década de 1970.

Minha primeira morada foi na Rua da Cruz, numa casa estreita porém comprida, com sala de visita, três quartos, sala de refeições, cozinha, um longo corredor (onde ficava uma enorme radiola) e uma área de serviço, também longa, onde, em dias de chuva, tomava banho, usando uma bica que na verdade era o final da calha onde a água da chuva caia com mais força.

Depois desta área vinha o que de melhor a casa dispunha, pelo menos para mim: um imenso quintal, todo em terra batida, com uma alta goiabeira, e, num dos cantos, um amontoado de pedras, de tamanho médio, que servia para estender a roupa lavada; mas que, nos meus propósitos lúdicos, era um grande rebanho de gado.

No quintal também ficava os banheiros, separados, um para higiene corporal e o outro para as necessidades fisiológicas. Tinha também uma banqueta de madeira, onde minha mãe armava um pequeno moinho manual que era ultizado vez por outra para moer milho, cuja pasta era usada na feitura de canjica, um doce muito comum nesta região.

Nos dias em que minha mãe fazia canjica, era uma verdadeira festa, onde todos os filhos menores revezavam-se no moinho e disputavam a panela com as sobras levemente queimadas da canjica, o que para nós era a parte mais saborosa do prato.

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Para Rossana: paz!




Enquanto caminhava até a escola de PR, resolvi ligar para Jackson Bola Bantim. Queria confirmar sua presença no próximo programa Cariri Encantado. Passava um pouco das onze horas. Ao atender o telefone, Bola logo informou do acidente fatal com a filha de Valter Pinheiro, a quem chamo de Valter do Mercantil, por conta do Mercantil Compre Bem, fundado por seu pai e gerenciado muito tempo por ele, antes de cerrar as portas, há alguns anos. Bola estava indo prestar solidariedade a um velho amigo, por sinal uma pessoa bastante conceituada, respeitada e querida por todos aqueles que o conhecem.

Essa notícia "mexeu" comigo por todo o dia. E continua "mexendo".

Agora, há pouco ao ver a foto da filha de Valter, Rossana, reconheci de pronto esse rosto angelical, da locadora de filme que pertence a Valter e da qual sou cliente. Certa vez, ela me atendeu e eu fiquei impressionado com a sua beleza e meiguice.
Nesta foto, ela parece um pouco com a minha filha Talita.
Neste momento, quando ela está sendo velada, eu fico imaginando o sofrimento de todos os seus familiares e amigos. Mas, principalmente, da dor cruel e imensurável que seus pais estão sentindo agora. Não sei como reagiria se fosse comigo. Espero que Deus me poupe de uma tragédia semelhante. De coração, prefiro morrer do que ter que enterrar um filho.

Minha mãe já passou por isso, mais de uma vez. E numa delas, foi com um filho adulto. Depois da morte de José, em 1998, quando ele tinha 46 anos, ela nunca mais foi a mesma.

Que Deus reconforte os pais que se tornam órfãos dos filhos.

sábado, 29 de agosto de 2009

Tomé, que cria sem ver

Entre a última aula de natação sob a orientação de Tomé e o dia em que, de fato, nos reencontramos e selamos uma amizade que já estava escrito nas estrelas, passou-se quase duas décadas.

Em 1992 me casei com Rosa e fui morar no Mirandão, um bairro relativamente novo e assim chamado por situar-se próximo ao estádio homônimo. Tomé foi o primeiro morador do novo bairro, ao qual ele batizou de Vila Chifre de Ouro.

Lá, nossos primeiros encontros foram mais frios do que o mais tenebroso inverno no Pólo Norte, permeados por simples e monossilábicas saudações. Até que um dia, por volta da metade da década, o encontrei em meio a uma tarde de sábado etílica, em um barzinho próximo, e estimulado pela bebida, sentei-me na mesa em que ele dividia com um amigo comum.

Em clima descontraído, todo o gelo que impedia a aproximação derreteu-se. No entanto, o primeiro comentário que Tomé fez foi contundentemente sincero: se eu tivesse lhe feito algum mal, você não teria esquecido de mim.

Foram palavras que ainda hoje reflito a respeito. Tomé fez-me tão somente o bem. Jamais o esqueci, mas passei um longo e tenebroso inverno longe.

A partir desse encontro, minha relação com Tomé foi de uma intensidade incomum. Já éramos cratenses, escoteiros, desportistas, flamenguistas, beatlemaníacos, biriteiros e, agora, vizinhos.

O amigo comum era Humberto Mendonça, na época vice-prefeito do Crato. Nós três vivemos momentos inesquecíveis e prazerosos juntos.

Pra completar, quando Moacir Siqueira foi prefeito do Crato, Tomé, que era secretário de Esporte, foi o principal responsável pela minha nomeação como secretário de Cultura, Turismo e Meio Ambiente, cargo que exerci de 1999 a 2000.

2000 foi o ano da morte de Tomé, vitimado por um tumor no cérebro, cuja agonia final eu acompanhei de perto.

No sepultamento de Tomé nunca se viu tantos homens chorando.

Tomé foi um cultivador de amigos.

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Tomé, amigo e mestre (para sempre)

Na minha infância, as colônias de férias e os cursos de iniciação e formação esportiva, promovidos pelo Sesi (Serviço Social da Indústria), eram como que um programa obrigatório para todas as crianças e adolescentes que gostavam de esporte e lazer.

Como morava relativamente perto do Sesi, sediado num imponente conjunto de prédios e equipamentos esportivos e de lazer (piscina semi-olímpica, quadras poliesportivas, diversificado salão de jogos, salão de baile e cinema), além do fato de que meu irmão Tobinha era funcionário da instituição,- eu era um assíduo frequentador.

Aos domingos tomava banho de piscina e participava do vesperal dançante animado pela banda Os Sesianos, da qual Tobinha era o baterista.

Durante a semana, praticava natação, sob a orientação do professor Tomé. Tudo isto, na segunda metade da década de 1970.

Foi, pois, nessa época que conheci Tomé. Eu era uma criança e ele já era um homem casado. A diferença de idade era de quase quinze anos. Enorme, por sinal, quando se está no início da jornada da vida. Por isso, nossa relação era de professor e aluno. Mas, uma relação de respeito, da minha parte, e de extremo zelo, da sua.

A minha admiração por ele já era grande, assim como a gratidão, pelo fato dele ter me ensinado a nadar.

Lembro bem do dia em que nadei pela primeira vez, sem a proteção de uma bóia. De surpresa, Tomé mandou que fôssemos para a parte funda da piscina e pulássemos na água. Lembro bem de suas palavras: não tenham medo, eu estou aqui.

Confiante, atirei-me na água e tive uma das mais aprazíveis sensações que já tinha tido na vida: a de flutuar na água como se fosse uma pluma.

Foi um sentimento indescritível de liberdade e poder.

terça-feira, 25 de agosto de 2009

Geraldo Urano, uma amizade cósmica

Foto: Pachelly Jamacaru
Nascer e viver na mesma cidade em que Geraldo Urano nasceu e vive, já seria o mais precioso presente que eu poderia receber. Melhor ainda foi tê-lo conhecido, vivido com ele momentos inesquecíveis, de pura e profunda poesia, e poder dizer que somos, mais do que nunca, grandes amigos.
Geraldo vive nesse tempo presente, mas ele, peremptoriamente, não faz mais parte dele. Geraldo está anos-luzes à frente. Tanto que parece não ter aguentado a barra de tempos tão mesquinhos para uma alma tão boa.
Ele já está em outra dimensão, apesar do seu corpo ainda presente.
Mas ele sempre nos avisou de sua urgência, como um transeunte apressado a semear a mensagem de um vida nova.
Sua poesia foi outra grande dádiva que ele nos legou, de forma desinteressada, mas nem por isso inconsequente.
Não sou profeta, mas também não sou incauto: a obra de Geraldo Urano será, um dia, objeto de estudo nos cursos de literatura.
Hoje, apesar de orgulhoso e agradecido por ser amigo de Geraldo, sinto um grande vazio, provocado pela ausência dos velhos encontros, onde eu me sentia, como por osmose, um pequeno mais significativo grão desse misterioso e esplêndido universo.

domingo, 23 de agosto de 2009

Ao Mestre Sala, com carinho


Com Salatiel na Casa do Sítio Rosto (Páscoa/2009)


Tenho falado ultimamente sobre amigos e amizade. Não poderia, pois, deixar de falar de uma pessoa que é muito mais do que um amigo, pois o considero como um irmão: Luiz Carlos Salatiel.

Na época dos festivais do Crato, quando ainda era um "menino mijão", devo ter ouvido falar sobre Salatiel, pois ele foi um dos grandes nomes daqueles eventos. Mas, não lembro nada a respeito. Somente quando conheci pessoas que tinham sido contemporâneas dele, como Bola Bantim e Geraldo Urano, é que soube, por fim, de quem se tratava.
Nessa época, inícios dos anos oitenta, Salatiel morava no Rio de Janeiro, mas já planejava retornar definitivamente para o Crato. Nessa época, também, eu editava o jornal Folha de Piqui e participava da Associação dos Amigos do Parque, que realizava, nas noites de sábado, uma feirinha de artesanato no Parque Municipal, onde hoje é a Praça Alexandre Arraes, no bairro do Pimenta. E foi justamente numa dessas feirinhas, em 1984, que conheci Salatiel. A partir de então, construimos uma perfeita e profunda parceria, permeada de realizações no campo da arte e da comunicação.
Foi através de Salatiel que tive oportunidade de ler os livros, assistir aos filmes e ouvir as músicas que me influenciaram profundamente. Foi com o incentivo dele que pude realizar o sonho de formar uma banda de rock. Foi junto dele que pude realizar os planos que todo jovem da minha época tinha: promover eventos culturais, fazer programas de rádio, viajar (em amplo sentido), fazer militância política e ecológica, organizar encontros etc.
Hoje, nossa amizade, de 25 anos, já não mais a mesma: é maior ainda.

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

O eterno mítico Abidoral Jamacaru

Foto: Dihelson Mendonça
Salatiel convidou-me para apresentar com ele o programa Cariri Encantado, que é veiculado todas as sextas-feiras, das 14 às 15 horas na Rádio Educadora do Cariri. O programa tem o apoio do Centro Cultural BNB Cariri e é voltado para a divulgação da cultura regional, tão cantada, decantada e encantada.

Desde o final de julho que, devido a ausência de Salatiel da região (está de férias no Rio de Janeiro, eterna Cidade Maravilhosa, deleitando-se com uma farta e qualificada programação cultural), estou produzindo e apresentando o programa sozinho.

Hoje foi, pois, dia do programa, quando apresentei uma pequena amostragem da obra do compositor e cantor cratense Abidoral Jamacaru que, inclusive, concedeu um rico depoimento sobre sua vida, sua carreira artística e sua música.

Abidoral despontou nos até hoje festejados festivais regionais da canção, que aconteceram, em Crato, por quase toda a década de 1970. Depois, passou uma temporada na Cidade Maravilhosa.

Em meados da década de 1980, Abidoral retornou ao Crato. Foi quando o conheci pessoalmente e travei com ele uma amizade que perdura até hoje, apesar de já termos nossos momentos de estranhamento.

Digo que o conheci pessoalmente, porque para todas as pessoas da minha geração, Abidoral já era uma pessoa por demais conhecida e respeitada. Isso por conta de sua participação nos citados festivais.
Lembro de quando vi Abidoral pela primeira vez, depois de já saber de quem se tratava, pois era um assíduo ouvinte dos festivais, transmitidos que eram pela Rádio Educadora, quando ainda era um menino que mijava na cama.

Esse primeiro encontro, à distância, foi na Exposição do Crato. Fiquei bastante admirado com aquela figura mítica e de aspecto bíblico: cabelos e barbas longos e desalinhados, camisa de mangas compridas e aberta até o meio do peito, envergando um surrado jeans, calçando uma sandália currulepe de couro e falando quase aos sussurros.

Hoje, durante o programa, eu revelei este fato a Abidoral.

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

O meu melhor amigo é Fran


Digo sem medo de errar: meu melhor amigo é minha mulher. Tenho provas irrefutáveis disso.

Se amigo é convivência, diária, instante a instante, nem sempre aprazível ou tranquila, cheia de probleminhas e problemões, - então ela é o meu amigo mais presente.
Durmo com ela. Acordo com ela. Almoço com ela todos os dias. Sempre que ela sai ou quando eu saio, temos que avisar que estamos nos separando momentaneamente. Mesmo assim estamos sempre conectados.

Se amigo é embarcar num barco sem nem mesmo fazer uma avaliação das condições do casco, sem salva-vida, sem ao menos saber qual o rumo que ele vai, - então ela é o meu parceiro nessa viagem, nem sempre calma. Somos uma tripulação unida.

Hoje o meu melhor amigo está aniversariando. Vou dar-lhe um presente compatível à sua imensurável estatura. Vou dar-lhe também um futuro, pois o meu passado ela já tem.

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Aos meus amigos

Uma das grandes instituições merecedoras de confiança e de homenagem é a amizade única, plena e verdadeira.

Tenho várias amizades alojadas no peito.

Não vou nominar essa relação agora, pois, com certeza, ei de esquecer um ou dois nomes e causar um certo mal-estar.

Mas, vou iniciar uma série, doravante, sobre aqueles que já deram prova de amizade irrefutável.

Aguardem, meus leitores, pois, os próximos posts.

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

P.R., o surrealista

P.R. ainda não perdeu a mania de riscar as paredes.

E nem todos os papéis e lápis de cor que lhe foram dados até agora foram suficientes para que ele deixasse de expressar sua arte no lugar mais inconveniente da casa (pelo menos para este tipo de função).

A casa do Sítio Rosto ficou igual a uma tela surrealista em terceira dimensão, com todos os tipos de traços possíveis, feitos com o mais variado material de pintura e desenho (caneta esferográfica, pincel hidrográfico, giz de cêra, lápis de cor, lápis grafite, baton, carvão etc).

Na casa nova, P.R. está sob total vigilância, mantido ao longe de todos os intrumentos possibilitadores de sua arte proibida.

Mesmo assim, P.R, conseguiu burlar a vigilância e cometeu seus novos rabiscos vanguardistas em um canto de parede.

Por conta, levou umas palmadas da mãe, que teve o cuidado pedagógico de fazê-lo compreender o motivo do castigo que ele sofrera, perguntando:

_ Você sabe por que apanhou, Paulo Rafael?

Ao que P.R. respondeu:

_ Porque você é chata.

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Memória de um militante de esquerda quando jovem

Em 1983, apesar de muito moço, vivia o apogeu da minha militância política. Na época, menor de idade, era um dos mais ativos militantes do PT do Crato. Só não me filiei ao PT porque era menor. Não podia. Restou-me o consolo de uma filiação simbólica, a exemplo do meu grande amigo e compadre Sérgio Ribeiro, que de tão radical na época, era conhecido como Sérgio Guevara.

O PT do Crato, que tinha sido fundado somente um ano antes, já tinha participado da eleição municipal de 1982, com a candidatura do pedreiro José Francisco para Prefeito e do professor Ronald Albuquerque para vice.

Comecei a fazer parte do Diretório do PT do Crato logo depois. A sede do partido ficava na Rua da Vala (Rua Tristão Gonçalves), numa casa antiga e espaçosa, cujo aluguel era pago com a contribuição dos poucos filiados. Nós, filiados simbólicos, não tínhamos renda e ajudávamos no custeio das despesas vendendo bottons e camisetas. Semanalmente nos reuníamos. Líamos documentos e mais documentos expedidos pelas várias tendências internas. Eu me afinava mais com a tendência majoritária, integrada pelos fundadores do Partido, dentre eles Lula, chamada de Articulação.

O quadro de filiados era pequeno, mas valoroso. Além dos já citados acima, faziam parte o médico Marcos Cunha (que foi candidato a prefeito em 1988, numa campanha histórica), a atual vereadora Mara Guedes e seu esposo Expedito (líder sindical eleito vereador em 1988, a exemplo de Ronald Albuquerque), os professores Roberto Oliveira, Alda, Carminha, Emanuel Nunes, Zé Ari Feitosa, Hermano Roldão, Eleonora Albuquerque, e até um empresário, Geraldo Bringel. Parte deste PT histórico permanece ligada à agremiação.

Minha primeira militância pública foi na Campanha pela Meia-Passagem, que realizamos juntos com o PC do B do Crato e entidades estudantis da região. Depois, a histórica Campanha das Diretas Já, que consistiu, no Crato, em comícios realizados nos bairros, tendo o fusquinha azul de Marcos Cunha, dotado de um alto falante, como único apetrecho de apoio. No dia da votação da emenda que visava restituir o direito do voto direto para presidente da República, fizemos uma vigília no Parque Municipal. A dor da derrota foi bastante sentida por nós, românticos e jovens militantes da esquerda cratense nos anos 80.

domingo, 9 de agosto de 2009

Datas especiais

Creuzinha ladeada por netas (da esquerda para a direita: Talita, Ravena, Mariana II, Ana Paula, Mariana I e Ticiana)

Ontem foi aniversário de Creuzinha, minha mãe. Ela completou 85 anos. Lúcida e linda. Uma bênção divina.

Hoje, Dia dos Pais. Recebi presentes de Fran, Ravena, Talita e Paulo Rafael. Abracei minha esposa e meus filhos e agradeci a Deus por eles. São os maiores tesouros que tenho.

Ao meu pai, hoje um espírito de luz, minhas profundas e eternas reverências.

terça-feira, 4 de agosto de 2009

Rafael em crise

Como não tenho bulufas pra dizer, vou colando o que que encontro por aí:

Imagem capturada do twitter de Van Luchiari (http://twitpic.com/ct8uj)


Transcrição (para os míopes como eu):

Pedra de Previsão do Tempo:
CONDIÇÃO - PREVISÃO
Pedra molhada - Chuva
Pedra seca - Tempo seco
Sombra no chão - Ensolarado
Pedra Balançando - Vento
Pedra branca no topo - Nevando
Não se consegue ver a pedra - Nevoeiro
Pedra pulando para cima e para baixo - Terremoto
A pedra não está - Tornado

domingo, 2 de agosto de 2009

Luiz Gonzaga e Zé Bento


Queria, de alguma forma, prestar um tributo ao Rei do Baião, mas só consigo, no momento, lembrar de quando estive a meio metro dele, no Parque Asa Branca, no dia de sua despedida, quando promoveu uma festa chamada “o Rei volta pra casa”, em dezembro de 1982. Era um domingo e fui, na companhia de amigos, para vizinha cidade de Exu, terra de minha mãe e dos meus irmãos José, Astécia (Tecinha), Osvaldo (Tobinha) e Ana Maria, que, por sinal, lá residia. Foi quando conheci meu cunhado Zé Bento, na época namorado de Ana, e, com certeza, o maior admirador de Luiz Gonzaga. Na verdade, Zé bento, é parente de Luiz Gonzaga (se não for, dá no mesmo). O pai de Luiz Gonzaga, seu Januário, era compadre do pai de Zé Bento, seu Manoel Bento. Zé Bento tem várias histórias (e “estórias”) com Luiz Gonzaga. Uma delas, que eu gosto de fantasiar sobre, aconteceu na década de 1970, quando Zé Bento, que na época morava em Porto Franco, Maranhão, foi assistir a uma apresentação de Luiz Gonzaga em Araguaína, atual Estado de Tocantins. Cometi até uma espécie de versos em cordel sobre este episódio que um dia pretendo divulgar. Zé Bento sabe de cor todas as músicas de Luiz Gonzaga e corrige quem, por acaso, errar uma mera palavra ou mesmo o uso incorreto de um plural ou singular. Zé Bento é, com certeza, um dos maiores admiradores de Luiz Gonzaga.

No supracitado dia em que estive bem próximo da lenda viva Gonzagão, o poeta Geraldo Urano também estava em Exu. Foi quando ouviu um trio elétrico tocando uma música dos Beatles e escreveu este poema:

os beatles no exu
num trio elétrico
na luz da tarde
de lábios molhados
na água fresca de abacaxi
castanha e caju
a solidariedade existe
no brasil
castanha e caju
e a praça já é um verso
musicada pelo som
dos automóveis na piçarra


Coincidências acontecem. Portanto, cito um fato que aconteceu na década de 1960, época do auge da Jovem Guarda, quando o Rei do Baião andava meio esquecido. Carlos Imperial, produtor e compositor, noticiou que os Beatles iriam gravar Asa Branca, antológica música que praticamente catapultou Luiz Gonzaga para o estrelato. Era uma farsa, mas que serviu para que a mídia novamente voltasse seu foco para este filho de Exu que nunca renegou o seu torrão natal. Pelo contrário...

sexta-feira, 31 de julho de 2009

Hare Krishna

No final de 1980, naqueles dias com ares de encantamento que antecedem o Natal e o Ano Novo, conheci um casal de monges Hare Krishna que esteve no Crato e ficou hospedado na casa de Emerson Monteiro.

O casal vinha percorrendo o Brasil em uma Kombi de cor branca, difundindo aquela exótica filosofia através do canto do mantra Hare Krishna, da venda de livros e de pregações em praças públicas. Ao lado dos livros, de autoria de Bhaktivedanta Swami Prabhupada, mestre espiritual e fundador do Movimento Hare Krishna, também estava à venda um compacto produzido pelo ex-beatle George Harrison, com o mantra e uma capa com uma bela gravura de Krishna.

A monja era de uma beleza celestial. Chamava-se Nivaduipa Dasi e era oriunda de uma abastada família baiana de Salvador. Tinha estudado nos Estados Unidos, onde conheceu o movimento Hare Krishna. Tinha dois irmãos que também eram monges. Posteriormente, conheci os dois.

Numa bela manhã, dei de cara com este casal na Praça Siqueira Campos, sentado em frente de uma esteira repleta de livros e incensos. Cantava o mantra Hare Krishna. Ele tocava um harmônio e ela, címbalo. Além da música, totalmente desconhecida para mim, também nunca tinha visto aqueles estrambóticos instrumentos. O harmônio é um instrumento musical híbrido de teclado e fole, tal como o de um acordeom. Címbalo é um antigo instrumento constituído por dois meios globos de metal que percutem um contra outro.

Aqueles canto, instrumentos e casal, todos estranhos aos meus olhos provincianos, tinham atraído uma pequena multidão ao redor, incluindo a mim, um adolescente, próximo dos 15 anos, que tinha feito recentemente um curso de liderança cristã e então andava bastante engajado nas ações da Pastoral de Juventude Católica.

quinta-feira, 30 de julho de 2009

Folha de Piqui (2)

O jornal Folha de Piqui mantinha um forte intercâmbio com a imprensa alternativa da época e também publicava colaborações inéditas de ícones da chamada poesia marginal da década de 1970, como Leila Miccolis, Cláudio Feldman e Glauco Mattoso. Por outro lado, a Folha de Piqui extrapolava, felizmente, sua função editorial e jornalística, constituindo-se em um efetivo movimento de produção cultural, a exemplo da retomada do Salão de Outubro, forte referência da divulgação das artes plásticas e outras manifestações culturais produzidas pela rapaziada caririzeira.

A linha editorial de cada edição era definida em encontros informais, sempre regados a generosas doses de cachaça, no Bar de Aderbal, no Parque Municipal. Priorizávamos as colaborações da turma do parque. Depois, completávamos a edição com as colaborações que chegavam de roldão. O período que antecedia ao lançamento de cada nova edição era de plena efervescência. Reuníamo-nos diariamente para comentar o penoso processo de feitura do jornal. Leonel (a quem Geraldo chamava de Papirus Boy) e Wellington Marques não bebiam. Em compensação, Eu, Geraldo e Decas bebíamos por todos.

A primeira cisão no núcleo-fundador do jornal aconteceu logo após a circulação do primeiro número. Geraldo Urano pediu mil cruzeiros para tomar umas cachaças (para se ter uma idéia do valor referencial da moeda da época, o jornal era vendido por cem cruzeiros). Eu, que era o zeloso tesoureiro do jornal, indeferi a solicitação. Geraldo disse que estava fora e que não autorizava publicar nada dele doravante. Contornei o problema em seguida, pagando-lhe uma rodada de cachaça.

E assim prosseguiu a epopéia da Folha de Piqui. Foram cinco edições, de julho de 1983 a agosto de 1985, impressas na Empresa Gráfica Ltda. Depois, foram lançadas mais duas edições, em formato boletim e impressas em off set.

quarta-feira, 29 de julho de 2009

Folha de Piqui


O jornal Folha de Piqui não tinha uma periodicidade certa para circular. Dependia de patrocinadores para bancar a tiragem de mil exemplares, impressos na Empresa Gráfica Ltda., pertencente à Diocese do Crato. A gráfica era dirigida por Ari Albuquerque, sobrinho do então padre Gonçalo (hoje, monsenhor) e que imprimia o jornal A Ação, porta-voz do episcopado cratense e de circulação semanal. Quando criança, meu pai, que sempre me incentivava no hábito da leitura, comprava o jornal A Ação todos os sábados e eu o lia de cabo a rabo. Meu irmão mais velho, Armando, antes de ingressar na carreira bancária, escrevia uma coluna para o jornal, chamada de Micro-notícias. Antonio Vicelmo, hoje renomado jornalista, também escrevia uma coluna, chamada de As coisas. Lembro, também, de uma coluna escrita por Monsenhor Feitosa, um brilhante intelectual, do qual posteriormente me aproximei por conta do Movimento de Juventude do Crato, o Mojucra, órgão da Pastoral de Juventude da Diocese do Crato. Enquanto lia as páginas do sisudo jornal A Ação não imaginava jamais que alguns anos depois, com dezessete anos de idade, seria um dos fundadores de um jornal cultural que seria impresso na mesma gráfica onde era impresso aquele tradicional hebdomadário.

A Empresa Gráfica, na verdade, era uma tipografia que trabalhava ainda com o arcaico sistema de linotipia, onde as linhas dos textos a serem impressos eram transformadas em tipos formados por finas barras de chumbo, depois derretidas para dar formato a novos tipos. As gravuras, se não fossem feitas de madeira, teriam que ser reproduzidas através de clichês feitos em zinco ou em chumbo. Era um ofício predominantemente artesanal, apesar da impressão ser feita em série.

Passava, praticamente, uma semana ou mais, o dia todo, na gráfica, revisando os originais e fazendo a diagramação final. Muitas vezes, ainda não tinha a quantia acertada para pagar a impressão. Mesmo assim, Ari liberava a edição para que pagássemos o restante com a venda dos exemplares. Somente uma vez, Ari não aceitou o pagamento fora do prazo. Organizamos uma comissão, tendo à frente o gravurista Normando Rodrigues e fomos falar com Dom Newton, então bispo auxiliar da Diocese. Dom Newton ligou imediatamente para Ari e liberou o jornal.

Colocávamos os exemplares nas bancas de jornal, mas o grosso da venda era feita de forma avulsa, principalmente na Faculdade de Filosofia do Crato, embrião da futura Universidade Regional do Cariri. Passávamos de classe em classe e os estudantes, muito a título de apoio, adquiriam o jornal. No início, o nome Folha de Piqui causava estranheza e, quase sempre, quando o anunciávamos, provocava risos. O termo piqui remetia a piquizeiro (o nome correto é pequizeiro), como era tachado um cratense pelos rivais juazeirenses, a quem chamávamos de romeiros. Era a tradicional rivalidade entre as cidades de Crato e Juazeiro do Norte ainda em voga.

O núcleo fundador do jornal, além de mim, era integrado por Leonel Araripe, Wellington Marques e os poetas José Bezerra de Figueiredo Filho, o Decas, e Geraldo Urano. Fizemos uma reunião no Parque Municipal, numa noite de meio de semana, e sentados na grama, colocamos em pauta qual seria o título do jornal. Geraldo Urano sugeriu dois nomes: Quarto Crescente e The Pineal. Eu sugeri Folha de Piqui e todos aprovaram a sugestão. Com o título definido, partimos para reunir as colaborações e buscar o apoio financeiro. O trabalho de alavancar o patrocínio ficou a meu cargo e de Leonel Araripe, filho de uma tradicional família cratense, neto que é do respeitável historiador e escritor J. de Figueiredo Filho. A presença de Leonel foi de suma importância para conseguir os primeiros e cativos patrocinadores: a loja de eletrodoméstico F.C. Pierre & Filhos, o mercantil Cantina do Oliveira, o Café Itaytera, a loja de artigos culturais Bolart e os médicos Marcos Cunha e José Flávio Vieira. O corpo de colaboradores era por demais eclético: a nova geração de escritores,poetas e desenhistas, como eu, Leonel Araripe, Wellington Marques (que assinava Wellington Pasca), Edelson Diniz e os remanescentes de gerações anteriores, como Tiago Araripe, Zé Flávio Vieira, Rosemberg Cariry, Luiz Carlos Salatiel, Geraldo Urano, os irmãos Abdoral e Pachelly Jamacaru, Jackson Bola Bantim, Decas, Wilton Dedê, Stênio Diniz e Normando Rodrigues, além de contar com a colaboração de ícones da cultura popular, como o poeta Patativa do Assaré e o gravurista Valderêdo Gonçalves.

terça-feira, 28 de julho de 2009

Rebelde sem causa

O ano de 1982 avançava apressado para o seu fim. Tinha 16 anos e aquela inquietude existencial comum a tal idade. Estava insatisfeito com os estudos. A minha opção universitária era de uma impossibilidade total. Queria fazer jornalismo, mas, tal como José de Carlos Drummond, jornalismo não havia mais e agora, Carlos? Nem em Minas nem em Recife e muito menos em Fortaleza. Estava completamente “órfão de opções acadêmicas”. A política de oposição ao já agonizante regime militar era um lenitivo para aquele espírito rebelde precocemente cansado. Maldizia a província, rogava praga na tradição inerte que não possibilitava o descortinar de novas perspectivas. Estava cansado da minha antiga turma, da minha rua, do meu bairro. Como não iria fazer vestibular, também não me interessava as aulas do terceiro ano secundário no Colégio Diocesano. Depois de ler a literatura que resgatava a memória da resistência contra o regime militar, notadamente as de Alfredo Sirkys e Fernando Gabeira, queria montar um movimento igual, mas já não havia mais condições históricas para isso. Engajei-me no movimento estudantil cratense. Decepção total. A classe estudantil só queria saber de festas e eventos esportivos. Voltei-me para a contracultura: rock’n’roll, poesia marginal, literatura beat, esoterismo oriental, macrobiótica. No embalo, cometi as primeiras poesias. Buscava, sôfrego e desesperadamente, pessoas que estavam nesta mesma condição. Meu círculo de amizade mais constante passou a ser os membros do Movimento de Juventude do Crato - MOJUCRA. Separando o joio do trigo, dei de cara com uma turma que também escrevia poemas juvenis a la Neimar de Barros, mas que queriam romper com o teologismo reinante e fazer verdadeira arte: Rogério Proença, Cael, Eusébio Teixeira, Leonel Araripe, Fernando Barbosa, Alemberg Quindins, Wellington Marques. Ajudei a criar o Clube Literário do Crato, com estatutos e tudo, copiados do Instituto Cultural do Cariri. Lindemberg de Aquino, que foi fundador do ICC e era o editor da revista Itaytera, órgão oficial daquele sodalício, nos emprestou todo apoio e publicou nossa produção poética na edição do periódico de 1982. Por essas alturas, já tinha ocorrido uma cisão no Clube Literário, saindo dali, de um lado, o Movimento Sanguessuga-Poesia Piqui, integrado por mim, Leonel Araripe e Wellington Marques, e, de outro, o Mutart (Mutação na Arte), que abrigou o resto do pessoal. Foram lançadas antologias poéticas e instaurou-se uma sadia rivalidade entre as alardeadas novas vanguardas do Crato. O Sanguessuga, que tinha lançado a proposta da Poesia Piqui, espelhado na Poesia Pau-Brasil do movimento antropofágico de Oswald e Mário de Andrade, passou a publicar o jornal Folha de Piqui, que aglutinou o pessoal do movimento rival e abriu espaço para os artistas remanescentes das décadas de 1960 e 70.

quinta-feira, 9 de julho de 2009

Comentário de Ayla Maria


Ayla Maria, eterna musa e cantora, fez o seguinte comentário sobre artigo que publiquei em sua homenagem há alguns meses neste blogue:

Rafael, muito me sensibiliza sua crônica a meu respeito, como artista e como pessoa. Realmente sou como voce falou.Tive inúmeras oportunidades de ficar no Rio, em Recife e Belém, onde tinha programa semanal na década de 70. Tenho imensa alegria de ter ficado em minha terra, e aqui ser reconhecida carinhosamente pelo público. Gravação em disco de cera, lp, cd, dvd, televisão, rádio-teatro, enfim, minha vocação sempre foi cantar e representar, desde os meus 10 anos de idade. Com o Arrais, gravamos já 8 cds para o Fortaleza que muito amamos. Tivemos programa na TV Ceará ( Tupy), canal 2; na TVC (EDUCATIVA), Studio A, canal 5, por 8 anos (até 1999); na tv Cidade, canal 8 ( 5 anos), e na TV Diário (2 anos - 2000 e 2001). Atualmente estamos na TV Mais, canal 15, da Net. Diz para o Dihelson que artista nem envelhece e nem morre. Segundo o público, minha voz continua como DEUS me concedeu. Grato a voces pela lembrança de meu nome. Um carinhoso abraço.

Para acompanhar nosso videos pela internet, veja no site www.youtube.com/aylaearrais.

Da minha parte, respondi:

Prezada Ayla,

Diante de tamanha generosidade sua, ao publicar comentário sobre a crônica que fiz em sua homenagem, aliada à forte emoção que tive ao lê-lo, somente posso reiterar o que disse no final daquela crônica:

VIVA AYLA MARIA!

Foto promocional distribuida, no início da década de 1970, pelo Fã Clube de Ayla Maria

segunda-feira, 29 de junho de 2009

Anduiá

Anduiá ou Antonio Anduiá de Sousa foi um dos maiores craques do futebol caririense. Menino pobre, mulato, viveu na periferia onde teve tempo e espaço de sobra para bater suas peladinhas. Logo cedo já era um habilidoso jogador, de porte franzino e, portanto, leve e ligeiro; um atacante perigoso, de dribles desconcertantes e dono de uma rara inteligência para o jogo.

Almério Carvalho, em artigo publicado na revista A província, edição de dezembro de 2005, descreve o jogador como “hábil nos arremessos ao gol, de uma facilidade impressionante no cabeceio e no drible”.

O tempo áureo da carreira de Anduiá foi toda a década de 1960. Iniciou-se profissionalmente no futebol como jogador do lendário time do Sport Club do Crato, onde marcou época. Jogou ainda no futebol de Juazeiro e de Barbalha e correu mundo, atuando por equipes de Pernambuco, Alagoas, Sergipe, Bahia, Piauí, além de uma breve passagem no tradicional Ceará Sporting Club, da capital do nosso Estado.

Após encerrar a carreira de jogador, Anduiá atuou como treinador, dirigindo diversas equipes da região do Cariri e do Nordeste, onde ajudou a revelar grandes atletas. Almério Carvalho, por sinal, revela no artigo supracitado que foi Anduiá, quando treinou uma equipe sergipana, quem lançou o atacante Nunes, posteriormente artilheiro do Flamengo e da Seleção Brasileira.

Além de todo o seu glorioso e vencedor passado como esportista, Anduiá se destaca como um pessoa educada e inteligente. É um assíduo leitor de livros, jornais e revistas e, portanto, domina um variado leque de temas da atualidade ou assuntos históricos, a exemplo da história do cangaço, cuja literatura a respeito é profundo conhecedor.

quinta-feira, 25 de junho de 2009

Chimarrão todos os dias

Abri, com ajuda de uma tesourinha, mais um pacote de erva mate, marca Barão de Cotegipe, tipo tradicional, embalado a vácuo. A erva-mate Barão de Cotegipe é acondicionada em pacote longa-vida de um quilo e custa, no comércio do Crato, oito reais e setenta centavos; e traz inserido um cartão com o terceiro verso do Salmo 37: “entrega o teu caminho ao Senhor; confia nele e ele tudo fará”.

Sorvo, invariavelmente, todos os dias pela manhã, uma cuia da erva, com um litro de água semifervente. Neste ritmo, gasto três pacotes ao mês, o que me obriga desembolsar vinte e seis reais e dez centavos mensais para manter este hábito cotidiano. Este hábito, eu adquiri com o meu irmão Orlando, que, por sua vez, o adquiriu em Brasília, cidade de múltiplas influências culturais, onde reside há bastante tempo.

Enquanto tomo chimarrão escrevo a maioria dos textos e poemas que publico despretensiosamente nos blogues.

Apesar do amargo do líquido esverdeado e morno, ainda escrevo coisas adocicadas ou ácidas, coloridas ou desbotadas, quentes ou frias. A depender do momento.

terça-feira, 23 de junho de 2009

Blablablá

Quando a patota do Pasquim não tinha o que escrever e sobrava espaço nas páginas do semanário, ela tascava aquele sempre providencial blablablá...

Poderia ser sempre assim, uma solução para a falta de inspiração e de palavras, que recorrentemente nos assalta de maneira impiedosa. Simplesmente poderíamos tascar os blablablás necessários para preencher as lacunas cotidianas.

Um blablablá pode dizer muita coisa: eu tiamo ou vá sifu. Depende do destinatário ou do humor.

Pode ser um código cifrado: eubleu – toblô – cablá –ganblan – dobló – proló – queblê –derblé – ebli – vibli – erblé!

Sim! Estamos ai pro que der e vier!

E se eu ligo o rádio é só blablablá...

segunda-feira, 22 de junho de 2009

Chico Soares

Chico Soares morreu na década de 1990. Portanto, fui seu contemporâneo, mas não cheguei a conhecê-lo pessoalmente. Em compensação, tive em um dos seus filhos, o professor Tomé, um dos mais diletos amigos. Tomé, inclusive, herdou do pai um pouco do seu jeito espirituoso de ser.

Funcionário da Receita Federal em Crato, de vida social ativa e dono de uma verve incomum, Chico Soares é considerado, pela quase da totalidade dos cratenses, como o homem mais espirituoso do Crato.

São inúmeras as histórias cômicas protagonizadas por ele, como aquela clássica em que ele foi arrolado como testemunha de um crime ocorrido em plena Praça Siqueira Campos. O delegado, inicialmente, o inquiriu: seu Chico Soares, onde o senhor estava precisamente no momento em que o assassino disparou o primeiro tiro? Chico Soares respondeu: a dois metros da vítima. E o delegado, continuando o interrogatório, perguntou: e onde o senhor estava quando o assassino atirou pela segunda vez? E ele, de chofre, respondeu: de mil metros pra frente.

Chico Soares era um daqueles que preferiam perder um amigo à piada. Foi o que ocorreu com uma pessoa que lhe era muito afeiçoada, mas bastante detestada pela grande maioria da população. Chico Soares e o dito cujo estavam na Praça da Sé por ocasião do cortejo fúnebre do Monsenhor Pedro Rocha, que, dizem, até hoje foi o mais concorrido funeral do Crato. Depois de um longo tempo, onde os dois em silêncio assistiram ao desfile pesaroso da grande multidão, o amigo perguntou: Chico, quando eu morrer vai ter tanta gente assim no meu enterro? Ao que Chico Soares respondeu: se for pra enterrar vivo, vai ter é muito mais...

Depoimento de um neto de Maria Roxa

Há alguns dias publiquei uma matéria sobre Maria Roxa, abrindo uma série que pretende resgatar e homenagear alguns tipos populares do Crato.

Chagas, neto de Maria Roxa, que pra mim sempre foi e será Cival, (apelido derivado de Francival, nome com o qual quase foi batizado), fez este comentário interessante, esclarecedor e que, por isso, deve ser lido como um complemento do meu artigo:

"A minha avó não era necessariamente uma adepta do candomblé ou da umbanda. Ela não sabia uma só palavra de yorubá. Não havia lá em casa um espaço específico para culto (terreiro). E jamais vi ou ouvi alguém referir-se a Oxum, Exu, Iansã, Ogum e demais entidades do candomblé, que, de certa forma foram transpostas para a umbanda. Nunca vi ninguém falar em dar comida para o santo, algo que existe no candomblé. A minha avó era de fato espírita. Muitas pessoas iam lá em casa consultar-se com ela, mas não havia búzios, cantos, matança de bichos. Ela praticava algo muito próximo da umbanda e do candomblé, talvez na essência, mas não na forma. Eu diria que ela praticava o que chamam de “catimbó”, o que já era motivo de sobra para insuflar o etnocentrismo de certos católicos.

"Quanto à casa, havia um buraco no terreno que minha avó comprou para construir a nossa casa. Entendeu-se que era melhor aproveitá-lo a ter que gastar dinheiro com material para enchê-lo. Daí que surgiu o que chamávamos de 'subterrâneo'. Tinha dois quartos, uma sala e um banheiro. Interessante que lá viveu uma agregada da família a quem chamávamos de Munda (Raimunda), uma senhora extremamente católica, que andava sempre com um colarzinho (terço) de contas brancas com uma cruz e uma imagem da virgem gravada numa peça de metal.

"Essa 'repulsa' de que você fala era sentida por nós. Havia uma menina na escola que sempre gritava na classe que eu era neto da nega feiticeira, quando eu encrencava com ela. Uma professora reprovou uma de minhas irmãs e a mim. Vim a saber depois que tal fato se dera não só pela incompetência escolar nossa, mas que havia um componente de intolerância nele.
Lembro que havia de fato entre nós um certo cuidado nas relações com as pessoas. Tínhamos uma espécie de consciência - aprendida com a experiência – do quanto éramos o outro.

"A nossa casa era basicamente um matriarcado. Minha avó morreu em Teresina em 1977. Isso foi o suficiente para que debandássemos.

"Por outro lado, é preciso que se diga que a época não ajudava nem um pouco. "

Da minha parte, respondi:

"Muitas incorreções registradas neste artigo são devidas à imprecisão da memória, notadamente quando emana de uma mente em formação, como a minha da época de criança.

"Diria que, muito mais do que aspectos memorialísticos, o que guardei e reproduzi foram mesmos aspectos imaginativos formulados com base no senso comum expresso pelos moradores do Bairro da Cruz.

"Creio que o mais importante é o resgate de uma vida cuja história foi deliberadamente conspurcada por representar uma ameaça ao status quo dominante. Desta forma, o meu objetivo foi o restabelecimento da verdade, pelo menos no tocante à sua relatividade.

"Você, como descendente de Maria Roxa, e ainda mais por conta de ser um depoente privilegiado, por ter sido criado no mesmo ambiente onde ela vivia, com este seu comentário, deu uma grande contribuição neste sentido."

domingo, 21 de junho de 2009

Maestro Azul

Maestro azul é muito mais do que o nome de um dos mais importantes tipos populares do Crato. É um título nobiliárquico, como devem ser os nomes dos verdadeiros mestres da música, a exemplo de Telonius Monk e B.B. King.

Maestro Azul pintou o seu mundo com todas as cores, do preto da cor de sua pele, ao branco da farda de gala da banda Municipal do Crato, do qual foi um dos mais expressivos regentes. Não era apenas um condutor, mas também um brilhante compositor. Pena que nada ficou registrado de sua obra.

Natural de Jardim, terra de músicos, como Zé Menezes e Manel D’Jadim, Maestro Azul, no entanto, encarnou mais do que ninguém a mais pura e legítima cratensidade.

Lembro dele em várias ocasiões: como maestro da Banda de Música do SESI Crato, em inúmeras e inesquecíveis retretas ou solenidades à frente da Banda Municipal do Crato, ou simplesmente no cotidiano gerenciamento do seu bar, localizado na Praça Juarez Távora, em frente à Igreja de São Vicente, no centro do Crato.

O poeta Geraldo Urano contou-me um episódio inusitado que envolveu o Maestro Azul e o laureado instrumentista carioca Paulo Moura. Este passava, anônima e descompromissadamente, um final de semana no Crato, por volta do início da década de 1980. Geraldo fazia-lhe companhia, ciceroneando-lhe pelos recantos do município. Foram tomar banho na Nascente e depois foram beber umas cachaças no bar do Maestro Azul. Lá os dois músicos fizeram uma jam session, Paulo Moura no clarinete e Maestro Azul no saxofone. Rolou um impagável repertório de chorinhos e gafieiras.
Desde 21 de junho de 2007